Muita gente, na hora de falar de Matrix, acaba vinculando com este anime. Matrix com certeza teve influência de Lain, ghost in the shell e animes desse gênero. A temática é a mesma. Assim como Matrix, Lain é bem complexo e difícil de ser digerido, mas se você conseguir abstrair tudo o que eles oferecem, vai ver que os dois, por mais que abordem cibercultura, focam em assuntos bem diferentes.
O anime é de 1998 (um ano antes de matrix) e faz parte dos animes mais populares do Japão, junto com evangelion e akira – que também aborda cibercultura e cyberpunk. É dividido em 13 episódios, e tem como protagonista, a própria Lain, uma menina de 14 anos antissocial e reservada. Na medida em que ela vai se aprofundando na wired, que é uma versão optimizada da internet, no qual as pessoas podem navegar livremente, o anime vai tomando outro rumo, se tornando desconexo e confuso.
Inteligência coletiva
Não dá para falar sobre o anime sem abordar a teoria de Pierre Lévy, uma vez que é praticamente a base do anime. Segundo Lévy, há muito tempo as pessoas estão conectadas entre si, formando a inteligência coletiva, por exemplo: eu sei o que aconteceu com meus antepassados, mas essa informação é inútil e vai ser descartada. Porém, informação deve ser compartilhada, a inteligência coletiva toma outro rumo depois da internet, pois passa a ser armazenada através de protocolos.
No anime, quando o sexto protocolo é afetado por um bug, grandes empresas investem na criação do sétimo protocolo, mas com interesses financeiros, já que ter o domínio do protocolo de internet significa a grosso modo, dominar a economia dela. Os laboratórios Tachibana ficam responsáveis pela implementação do sétimo protocolo.
Ressonância Schumann
Outra teoria que se encaixa no anime, é a do alemão Winfried Otto Schumann, que em 1952 constatou que a terra possui um campo eletromagnético a cerca de 100km acima de nós. Esse campo possui uma ressonância de 7,83 pulsações por segundo. Também verificou-se que todo os vertebrados e o nosso cérebro são dotados da mesma frequência de 7,83Hz (hertz). Os efeitos dessas “ondas cerebrais” que o planeta constantemente emite da terra sobre os humanos é desconhecido, e a população do planeta está aproximando o número de neurônios existentes no cérebro.
Um teorista estadunidense chamado Douglas Rushkoff, diz que a consciência da terra deverá acordar quando estiverem todos conectados, ou seja, se teoricamente a Ressonância Schumann nada mais é que uma junção das ondas eletromagnéticas cerebrais de cada ser humano, quando o número de pessoas atingir o número exato de neurônios de um cérebro normal, a terra adotará uma consciência particular, só dela, que será fruto da soma de todas as consciências.
De volta ao anime, o Professor Hodgeson cria um projeto chamado “kensington”. As crianças possuem uma força para-psicológica chamada PSI, que é fraca individualmente. O projeto em si, era canalizar a força de várias crianças em um dispositivo, do qual ele nomeou “K.I.D.S.”. Sua pretensão era adiantar a chamada “consciência da terra”, teorizada por Douglas Rushkoff. Vendo que o resultado seria algo além da imaginação, o Prof Hodgeson decidiu destruir todos os dados do projeto. Queima de arquivo total, para que nunca mais pudesse ser refeito.
É ai que entra o personagem mais importante da história: Misami Eiri, pesquisador-chefe dos Laboratórios Tachibana (empresa encarregada de implantar o sétimo protocolo na wired). Misami consegue resgatar o projeto Kensington, o re-escreve para que o receptor externo (dispositivo K.I.D.S., que se encarregava de coletar as ondas para-psíquicas) não precise mais ser utilizado. Tendo isso em mãos, ele desenvolveu uma rede neural mundial. Propôs a ideia de uma rede sem fios ligando toda a humanidade através de inconsciência sem necessidade de fios de fibra óptica ou dispositivos. Sem que ninguém soubesse, Misami introduziu a inteligência coletiva no sétimo protocolo da Wired. Quando seus superiores souberam, o demitiram. Passando um tempo, Misami foi encontrado morto em uma linha de trem. Misami descobriu como se introduzir na rede, e foi isso que ele fez. Com o sétimo protocolo modificado, o subconsciente da pessoa nunca deixaria de existir, logo o corpo não seria necessário. Ao contrário do que acontecia anteriormente, os dados nunca seriam perdidos. A pessoa passaria a viver na Wired como parte da inteligência coletiva. Misami agora era Deus. Deus onipotente e criador da nova Wired.
É quando ele decide personificar a inteligência coletiva que ele cria a personagem chamada Lain. Por ser a junção da memória de todos, ela é onipresente (está ao mesmo tempo em todas as partes), capaz de controlar todas as memórias. Logo, ela também acaba por ser uma espécie de Deus na Wired. Misami Eiri, já na forma de Deus onipotente, dá a ela um corpo material, o que ajudaria mais ainda a evolução da conexão do mundo real com o mundo virtual (Wired). Lain, a partir deste momento, passa a induzir o protocolo que governa a Wired a evoluir, incorporando um código que opera em nível mais elevado – que no caso, é a implantação de memórias do mundo real na rede.
A história passa a ser a retratação da vida de Lain e como ela vê isso, sendo ela não uma só pessoa, mas várias, a mescla de todas as memórias, tornando o anime muito confuso (já que a própria Lain está confusa e em uma busca existencial constante). É quando ela, ao se deparar com Deus, coloca em xeque a sua existência com o argumento do porquê de ele ter direito de fazer as coisas que ele fez, provando para ele que existe um Deus onipresente, onisciente e onipotente que deu início tanto a vida dele quanto a das outras pessoas. Misami Eiri, neste momento, deixa de existir. Lain agora é onipresente e onipotente, e com o poder a ela concedido, decide por fim apagar ela da memória de absolutamente todas as pessoas do mundo. "O que não é lembrado, nunca aconteceu, memória é apenas um registro, você só precisa re-escrever este registro". Com isso, é criado outro mundo alternativo (sem lain) que tudo é habitual e normal, como se nada tivesse acontecido e outro em que Lain vive sozinha, vagando no tempo-espaço, coisa que é normal a ela, por ser onipresente, estando em todos os lugares e em todos os momentos.
Escrito por Douglas.

Algumas coisas aqui são novas para mim, então o que tenho a falar é: "Caramba! Eu quero ver esse anime!"
ResponderExcluirPelo que eu vi, tudo isso tem ligações com a Física Quantica. Coisas de que a humanidade pouco conhece.
Ótimo post Douglas! O Blog ja está nos 'favoritos'!
Antonio, fico feliz que tenha gostado do blog.
ResponderExcluirBom pra quem só acompanha mangás e animes, Matrix foi inspirado em Os Invisíveis de Grant Morrison, vale a pena dar uma lida nesse material muito foda.As referências realizadas na obra são as mais diversas. Destacam-se: Teoria do Caos, Mitologia Asteca, sociedades secretas, metafísica, literatura medieval, viagem no tempo, cultura pop, literatura e várias outras.
ResponderExcluirmuito mais foda que Serial Experiments Lain.
Pessoalmente também acho a trilogia matrix infinitamente superior ao anime. Eu concordo com todas as influencias citadas por você. Além de referencias claras o mito da caverna e bastante cibercultura. Acho que tudo isso soma o primeiro filme dos três (basicamente, a teoria de que todos estamos vivendo um mundo genérico). Acabo preferindo o segundo e o terceiro filme que aborda mais metafísica, mundos desconhecidos.
ResponderExcluirVale a pena ler este texto
http://trezoitao38.blogspot.com/2008/02/matrix.html
Cara que resumo Foda!! Parabens, muito muito bom ;
ResponderExcluirDouglas brother, qual outro anime que aborda um tempo parecido com o de Lain que na sua opnião vale a pena assistir?
ResponderExcluirValeu Goha.
ResponderExcluirGuilherme, eu recomendaria Evangelion (aborda um pouco mais de religião e existencialismo, mesmo que tenho robôs, etc). Ghosth in the Shell, Akira...
eae Douglas,
ResponderExcluirnão sei se você entendeu muito bem, eu tava falando sobre a obra que Mstrix foi inspirada, Os Invisíveis de Grant Morrison.
da uma olhadinha qui ;)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Os_invis%C3%ADveis_(Grant_Morrison)
Olá joaquim.
ResponderExcluirEu entendi. Só acho que matrix tem um acúmulo de inspiraçõs, já que tem diversas histórias que são iguais ao matrix e ao invisiveis também. Tal qual neuromancer (de 1984) ou a prória analogia de platão.
Abraços. Valeu pelo comentário.
perae?!
ResponderExcluirela soh c apagou das pessoas q tavam conectadas a ela, tipo, a arisu ainda c lembrava dela após ela dar um resetão geral
não precisa avisar que entendeu (muito menos com spoiler). e a arisu não lembra exatamente, foi só um vestígio de memória (ou coincidência) que ela teve quando o rosto de lain lhe pareceu familiar.
ResponderExcluirde qualquer forma, lain é sensacional. e fora os efeitos especiais, nunca consegui ver qualquer qualidade em matrix - ao menos na história, que mesmo antes de ler neuromancer já me parecia um acúmulo de referências assimiladas em um roteiro padrão.
Posso colocar no meu blog?
ResponderExcluirEu poderia colocar essa postagem no meu blog?
ResponderExcluirGabriel / ciber-cultura. Com os créditos, links.. não vejo o menor problema.
ResponderExcluirsimplesmente foda, eu ja havia visto o anime, guardei tudo na mente, mas não entendi, apos ler isto tudo fez sentido, vou rever o anime, cara muito bom gostei, tem mais?
ResponderExcluiriemige, obrigado. Estou pensando em fazer uma teoria explicativa de evangelion ou de akira, mas por enquanto vou postando normalmente.
ResponderExcluirUau! adorei! bom trabalho! =)
ResponderExcluirTô assistindo, muito bom... até o sexto cap tá dando pra entender quase tudo, mas depois de ler aqui, deu uma clareada... vamo ver como termina.
ResponderExcluirCatingão
Muito bom seu post, encontrei procurando no Google sobre a Lain, muito interessante o que você escreveu. Mas, eu ainda tenho minhas duvidas se Lain foi mesmo criada pelo Eiri, as vezes parece que ela quem criou na verdade o desejo de Eiri ser Deus, até como uma carência que a Lain tem expressamente por carinho e companheiros, também ainda não me ficou totalmente fechado sobre a natureza da existência da Lain. Creio que depedendo da linha que se adote ao assistir o anime, filosófica, psicológica ou tecnológica podem se chegar a diferentes conclusões, todas coerentes. Quanto ao jogo da Lain, você já o viu? O que acha sobre?
ResponderExcluirHm.. não joguei esse jogo. Segue a mesma linha? Não consigo imaginar como fariam para ficar igual ao anime, fiquei curioso agora.
ResponderExcluirGostei do post, ficou bem claro pra um anime um tanto confuso e muitíssimo interessante! Me ajudou a compreender um pouco mais no sentido tecnológico.. ^_^
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